“Frango abatido na hora” é uma tradição com os dias contados
mar 20th, 2010 | By Ricardo Ribeiro | Category: Destaques, Manejo e SanidadeAVICULTURA SERGIPANA AMEAÇADA DE EXTINÇÃO
“Frango abatido na hora” é uma tradição com os dias contados
A avicultura sergipana é totalmente dependente da venda do “frango abatido na hora”, que geralmente não obedece aos mínimos cuidados higiênico-sanitários. Proibido em alguns estados, esse comércio é cada vez mais restrito, graças à maior rigidez na fiscalização e ao consumidor que está mais consciente preferindo optar pelo frango congelado, abatido em frigoríficos devidamente inspecionados e com preços mais atraentes.
Em Sergipe a produção diária de frango congelado não passa de 8 mil, já na Bahia são processadas pelo menos 260 mil aves por dia.

Com uma produção predominantemente artesanal, com baixa utilização de tecnologia, Sergipe, que já foi o segundo maior criador do nordeste, desce a ladeira e amarga hoje a sexta colocação, produzindo somente metade da carne de frango que consome.
A apatia e acomodação das empresas locais, satisfeitas com a maior margem de lucro (no curto prazo) obtida pela venda do frango vivo, atividade que não demanda grandes investimentos, aliada a falta de interesse do Governo num setor importante da economia local, responsável pela geração de emprego e renda, são os maiores perigos à continuação da atividade, já que as empresas do sul/sudeste investem alto na região, de olho no enorme mercado consumidor nordestino e da farta disponibilidade de mão-de-obra barata.
A distância dos centros produtores de milho e soja, matérias-primas à alimentação do frango, sempre foi apontada como um dos entraves para o desenvolvimento da avicultura sergipana. Porém, nem o surgimento de novas fronteiras agrícolas, como a expansão da cultura do milho na região de Simão Dias e o desenvolvimento da soja no oeste baiano, impediram que frangos de outros estados, mesmo tendo o custo com transporte, continuem sendo comercializados com preço inferior aos produzidos localmente, o que impõe a redução das margens ao ponto de em alguns períodos se ofertar o produto quase ao preço de custo.
O estado de Pernambuco, que não é auto-suficiente em milho ou soja, é o maior produtor de frango do norte/nordeste, exportando para vários estados, inclusive Sergipe. Isso é possível graças à união do setor público e privado, que permitiu uma política de constantes investimentos em tecnologia e capacitação profissional, possibilitando economia e redução dos custos através da produção em escala, necessária à avicultura moderna tão pujante e inovadora.
FRANGO CONGELADO X FRANGO VIVO
Na contramão do mercado, que sinaliza para um consumidor mais exigente, optando pelo frango congelado, de melhor qualidade, abatido em frigoríficos inspecionados e com preço mais acessível, a avicultura sergipana segue dependente da venda do frango vivo a pequenos abatedouros que comercializam o “frango abatido na hora”, muitas vezes sem obedecer a maiores cuidados sanitários, trazendo riscos à saúde dos consumidores e constituindo um importante vetor de contaminação e proliferação de doenças de origem alimentar.

É provável que grande parte desses estabelecimentos não consiga se enquadrar às exigências do Programa Nacional de Sanidade Avícola, que normatiza o processo de abate de aves, não podendo manter suas atividades, tornando o mercado cada vez mais restrito.

A falta de requisitos mínimos de higiene impôs o fechamento de cerca de 500 abatedouros, no último trimestre, em Salvador e região metropolitana. Os estados de Minas Gerais e Pará proibiram a venda de frango vivo abatido em feiras livres. Os feirantes podem comercializar a ave resfriada ou congelada, como é feito nos supermercados.

“A carne de frango congelada é mais saudável, já que alguns microorganismos não resistem a temperaturas baixas”, diz Denise Resende, gerente geral de alimentos da Anvisa. A principal reclamação fica por conta do excesso de água nas embalagens de algumas marcas. A lei determina que o limite permitido de água no frango é 6% do peso total da ave. O Ministério Público está multando empresas que descumpram a legislação. O consumidor deve redobrar os cuidados e exigir produtos de qualidade para não pagar pelo frango e levar água para casa.
SOFRIMENTO DO AVICULTOR SERGIPANO
Os avicultores que trabalham no sistema de parceria com as grandes granjas, responsáveis por grande parte da produção, são os maiores prejudicados. A exigência de peso no mercado de frango vivo obriga que a ave fique mais tempo no aviário, aumentando o custo de produção em 30%, gasto com eletricidade e mão-de-obra, além da perda provocada pela maior mortalidade. Os avicultores locais recebem bem menos – cerca de R$ 0,30 por ave, do que em outros estados cuja produção é voltada ao comércio do frango congelado que gira em torno de R$ 0,45. Ou seja, o custo é maior e o valor recebido é 50% menor.
Além do baixo retorno, as exigências da Instrução Normativa 56 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que deverá entrar em vigor este ano, determina que somente poderão continuar exercendo a atividade granjas que se adeqüem às novas medidas de biossegurança e manejo. Com um alto custo de adequação, devido às condições precárias da maioria dos aviários, a instrução trará dificuldades e poderá representar uma ameaça ao combalido setor.
Outra dor de cabeça para os avicultores é o risco da perda de boa parte da receita proveniente da venda da cama aviária. É proibido pelo MAPA o uso dos resíduos deixados pelos frangos no aviário para a alimentação animal, porém, com a publicação da Instrução Normativa 41 de 10/2009, que aprova os procedimentos de fiscalização, o cerco promete apertar ainda mais, transformando em caso de polícia o comércio desse produto.
Segundo Alexandre Caetano Duarte, que é produtor rural, a inviabilidade da utilização da cama de frango resultará em significativo aumento nas vendas das rações industrializadas, podendo causar prejuízo irreparável para pequenos e médios produtores. “Muitos clientes meus preparam a alimentação do gado com a cama de frango e, agora, com a fiscalização mais rigorosa, eles terão que comprar a ração industrializada, que é mais cara”, diz. Produtor rural há mais de 20 anos, Mário Cervato compartilha da opinião de Alexandre: “Eu me lembro quando lançaram a cama de frango. Foram à televisão, falaram que era o melhor método, melhor para o gado e que tinha mais proteína. Agora, quando já estamos acostumados a trabalhar com esse sistema, muda tudo de novo”.
Para piorar a situação dos pequenos avicultores, o bagaço da cana-de-açúcar, principal insumo utilizado na cama, está cada vez mais escasso. A produção de eletricidade a partir da queima do bagaço se tornou economicamente viável e as usinas passaram a produzi-lo para consumo próprio e se preparam para vender o excedente às companhias distribuidoras.
Diante deste cenário, é muito provável que a cama de frango perca seu valor comercial e os avicultores fiquem sem essa fonte de renda, reduzindo drasticamente seus ganhos. Será mais vantajoso reutilizar a cama em até seis lotes como ocorre no sul do país.
Ainda assim, encontramos produtores corajosos que apostam no sucesso da atividade e estão investindo agressivamente em aviários modernos, com tecnologias de ambiência e manejo automatizado, responsáveis pelo ganho em escala, proporcionando aumento de produtividade com redução de custos, sem qualquer reconhecimento das empresas integradoras.
Os empresários sergipanos devem despertar. Diversas empresas de fora estão batendo à porta. É preciso começar a agregar valor ao produto, investir em boas práticas de gestão e na capacitação dos seus profissionais, passando a valorizar e reconhecer a capacidade de inovação dos produtores locais, evitando frustrar expectativas, desestimulando novos investimentos e esgotando as possibilidades de sucesso no futuro.
Ampliar o debate e encontrar soluções para a atual situação da avicultura sergipana é o objetivo do portal Avicultura Inteligente (www.aviculturainteligente.com.br), cuja proposta é disseminar conhecimento, fundamental para acabar com esse estado de letargia e acomodação que pode dar fim a um setor importante que gera mais de 7.000 empregos no estado.
Ricardo Ribeiro – Avicultor e ex-secretário de Estado da Comunicação. Colabora com o Portal Avicultura Inteligente (www.aviculturainteligente.com.br).
QUADRO I
SISTEMA DE INTEGRAÇÃO – SUCESSO NA AVICULTURA BRASILEIRA
No sistema de integração pelo qual se desenvolveu a avicultura de corte sergipana e que possibilita a parceria entre empresas integradoras, as grandes granjas (três no estado), que fornecem os pintinhos, ração, medicamentos e assistência técnica e os pequenos/médios produtores que ficam encarregados de criar os animais em local adequado, com mão-de-obra e os equipamentos avícolas necessários. Neste modelo, responsável pelo sucesso da avicultura brasileira e presente em mais de 85% da criação avícola nacional, a empresa assume todo risco de comercialização e repassa ao produtor integrado a compensação financeira pela criação das aves, proporcional à quantidade de aves produzidas e a eficiência na produção. Segundo o presidente da ABEF (Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frango), Francisco Turra, a avicultura integrada é a melhor e mais justa reforma agrária já realizada no país, com distribuição de renda e garantia de qualidade de vida para os parceiros.
QUADRO II
NÚMEROS IMPORTANTES
- Nos últimos 30 anos o brasileiro passou a consumir de 2,3 kg para 39 kg de frango por ano, ultrapassando o consumo de carne bovina;
- O sul do país é responsável por 55% da produção avícola brasileira;
- A região nordeste, com o dobro da população e área três vezes maior produz somente 8% da carne de frango do Brasil.
O setor avícola representa:
- 5 milhões de empregos diretos e indiretos;
- 7 bilhões de dólares em exportações;
- 45% do mercado mundial de carne de frango;
- Maior exportador mundial de carne de frango com 4 milhões de toneladas para 150 países;